Biocomb


A pressa continua a ser inimiga da perfeição by squizato
14/março/2007, 2:13 pm
Filed under: Análise, Geral

Para quem lê as notícias relacionadas ao mercado de biocombustíveis com regularidade, duas coisas têm saltado aos olhos ultimamente. A primeira é o número de novos projetos na área. A segunda é o aumento de reportagens sobre aspectos negativos dos biocombustíveis.

As duas coisas estão relacionadas. A velocidade em que os projetos se desenvolvem gera reflexos em outros mercados, notadamente no agrícola. Isso cria um ambiente perfeito para alimentar o debate energia versus alimento. Não que este debate não deva ocorrer, mas colocado de maneira simplória é um debate perdido para os biocombustíveis perante a opinião pública.

Outro aspecto negativo que ganha espaço é a expectativa de desmatamento em função da expansão da fronteira agrícola. No Brasil e alhures.

A principal razão por trás desses dois destaques presentes na mídia é também essencial para o futuro dos biocomb: os projetos de introdução desses produtos à matriz energética. Os Estados Unidos e os países da União Européia são os principais exemplos, mas não são os únicos. São os mais importantes também porque são grande consumidores de energia e dispõem de pouco espaço e condições adversas para ampliar a produção de biomassa. Para piorar, nessas regiões também existe uma  demanda para substituir os combustíveis usados para aquecimento de residências e escritórios por fontes renováveis.

Felizmente, o problema da humanidade ainda não é escassez de terras. E o Brasil é a maior prova disso, com seu descomunal subaproveitamento do solo pela pecuária, que ocupa quase quatro vezes mais área do que todas as demais culturas somadas, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O problema imediato é de terras disponíveis para uso imediato por lavouras energéticas e o tempo de maturação de cada uma. A cana, por exemplo, requer cerca de três anos para começar a gerar o volume necessário para as moendas. A palma – com o ótimo rendimento de cerca de quatro mil litros de óleo por hectare – leva sete anos para atingir a plenitude de produtividade, assim como outras culturas perenes que são menos nocivas ao meio ambiente.

Além disso, muitas culturas, cuja produtividade as tornam competitivas para o mercado bioenergético, carecem de profissionalização no processo produtivo para reduzir custos. É o caso da maior parte das palmeiras amazônicas e mesmo do pinhão manso. Este processo também requer tempo para que os ganhos de escala surjam sem prejuízo ao meio ambiente e ao mercado alimentício.

Logo, ao menos até o final desta década é necessário equacionar o problema pelo lado da demanda. Metas muito ambiciosas sinalizam para o mercado uma pressa que é prejudicial no curto prazo a todos os interessados.

Parte do dano já deve ser contabilizado, como a crise do milho que afetou o mercado alimentício mexicano. Este é o melhor exemplo de como o incentivo ao etanol nos EUA – sustentado por dois discursos do presidente norte-americano George W. Bush – agitou o mercado não só do milho, como de outros grãos, principalmente a soja. Diga-se de passagem, esta agitação foi positiva para os produtores nacionais, que amargavam anos de cotações em baixa e custos em alta em função da elevação dos preços do petróleo.

Mesmo no Brasil, onde a oferta de etanol tem acompanhado a demanda (com reflexo positivo no preço ao consumidor final),  e existe larga experiência com biocombustíveis as coisas poderiam estar melhores. Há dois exemplos de problemas. O primeiro é a logística para o escoamento do etanol – inclusive no mercado interno – que tende a se agravar com o aumento da produção. O segundo é a falha  nas entregas de biodiesel adquiridos nos primeiros leilões promovidos pela ANP.

Também vale a pena eliminar alguma bobagens que começam a ser ditas em alto e bom som por meio da grande imprensa. A principal delas é que o Brasil se transformará novamente em uma monocultura de cana. Só pode dizer isso  quem há muito não anda pelas principais regiões agrícolas do país e há mais tempo ainda não olha os dados do IBGE e da Conab. A cana crescerá; e muito. Mas daí a dizer que irá ocupar o espaço de todas as demais culturas não passa de chute, de quem ignora inclusive o desenvolvimento tecnológico no setor e as mais básica das leis de mercado.

O Brasil também tem um bom exemplo de como a demanda pode ser melhor gerida. O afã de antecipar a meta compulsória do uso de B5 é bastante prematuro, quando na realidade ainda se está pensando sobre a oferta de B2 para 2008. A meta do ano que vem deve ser alcançada, pois nem todo o combustível precisa estar disponível no início do ano.  Se este fosse o caso, dificilmente o objetivo seria atingido em virtude de dificuldades agrícolas (novas culturas), técnicas (indústrias novas) e de mercado (competição com outros mercados) que devem surgir, como em qualquer projeto desta envergadura. Também não se vê, além das políticas públicas já lançadas, nenhum projeto estruturante para equacionar a oferta de biodiesel em função da demanda daqui a seis anos.

Da mesma forma, países estrangeiros devem ficar atentos ao planejamento para cumprir metas ambiciosas. O preço a se pagar é ruir pelo menos dois dos pilares dos combustíveis renováveis: sustentabilidade e segurança energética.

O primeiro, como se ê pelas notícias atuais já começou a ruir, vide o exemplo mexicano e o aumento dos custos das matérias-primas para produção dos biocombustíveis. O segundo virá abaixo de uma só vez  ou quando um país exportador de etanol ou biodiesel não cumprir seus contratos, ou quando um colapso de preços solapar o setor em países menos competitivos. Mesmo com o desenvolvimento tecnológico, a pressa continua sendo inimiga da perfeição.

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