Biocomb


Enxurrada de álcool ou demanda reprimida? by squizato
4/junho/2007, 3:13 pm
Filed under: Análise, Economia, Etanol, Geral, Política

Começou a safra 2007/2008 de cana, nem todas as usinas do Centro-Sul começaram a produzir álcool, o preço do produto já despencou e, como tem acontecido nos últimos anos, já começou a pressão para aumentar o volume de anidro na gasolina dos atuais 23% para o teto de 25%. Também já se fala em interromper investimentos em novos projetos.

Enquanto isso, governos estaduais e o governo federal dão um afago e um tapa. O governo federal, presidente Lula à frente, não cansa de enaltecer o álcool, a liderança brasileira no setor, a experiência de 30 anos e o restante do discurso que semana sim, outra também pinta a página de algum jornal importante, ou aparece em algum longo discurso em rádio, ou acompanha cenas de usinas em operação nos principais canais de televisão.

No palavrório vai tudo muito bem, mas quando a questão é melhorar a infra-estrutura de escoamento do produto para o exterior, a coisa engasga. Já se fala em um segundo alcooduto, mas o primeiro sequer começou a sair do papel. De acordo com declarações de dirigentes da Petrobras, ele só sairá se os japoneses resolverem comprar etanol. O governo federal também anda devagar na criação de novos mercados para o álcool brasileiro. Aparentemente, apenas Estados Unidos e Japão interessam. Por que não ir atrás dos países compradores de automóveis brasileiros e aproveitar para vender o carro com o combustível junto? Mais uma vez o Brasil espera para ser comprado, ao invés de colocar a pastinha debaixo do braço e sair à caça de clientes.

Ainda no âmbito federal, deveria-se criar uma forma mais transparente e ágil para definir a mudança do porcentual de álcool anidro na gasolina. A questão é complexa, mas não insolúvel. No atual andar da carruagem, corre-se o risco de acontecer o que já se viu em outros anos. Os órgãos do governo responsáveis pela questão passam a safra toda discutindo o assunto para determinar a mudança em novembro. Aí é o samba do criolo-doido, porque já é final da colheita na principal região produtora e também consumidora do produto. Em tempo, o aumento de 23% para 25% de etanol na gasolina representa algo como 500 milhões de litros de álcool, menos do que o previsto para o aumento da produção neste ano. Ou seja, ajuda, mas não resolve.

Os estados poderiam aumentar significativamente a demanda por álcool, pois muitos têm grande interesse em atrair novas usinas. Do mesmo modo que conferem enormes incentivos fiscais às novas usinas, esses governos poderiam reduzir as alíquotas de ICMS do hidratado para diminuir o custo do produto e torná-lo mais competitivo em relação à gasolina.

Ao  menos quatro estados que abrigam usinas e são vistos como novas fronteiras para o etanol mantém a alíquota do ICMS no mesmo patamar da gasolina: Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Outros 14 seguem a mesma linha. Os estados com alíquotas diferenciadas são: BA, CE, GO, MA, PB, PE, PR, RJ E SP.

O resultado desta política fiscal de dois pesos, duas medidas pode ser medido em números. Em 2006, a venda de álcool hidratado nesses estados variou desde 13% (TO) até 26% (MS) da venda de gasolina A (pura, sem adição de anidro). Em Goiás, onde a alíquota do álcool hidratado é 11 pontos porcentuais menor que a da gasolina, este índice foi de 35%. Em São Paulo, o índice é impressionante: 69%. A média brasileira foi de 33%.

Além de vender menos álcool, o que prejudica empregos nos estados produtores,  essa política fiscal incentiva a venda irregular, com sonegação de impostos. Quem mora em Minas perto da divisa com São Paulo sabe do que estou falando.
Enquanto os governos seguirem com a teoria de que usina é bom, mas consumir álcool é ruim vai ser difícil ver uma expansão sem sobressaltos, o que, traduzido para o inglês, significa risco.

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O alcoolduto do sol nascente by squizato
9/maio/2007, 8:25 am
Filed under: Análise, Economia, Etanol, Geral

O governo brasileiro já anunciou pelo menos quatro vezes em alto e bom som a construção do alcoolduto que ligará Senador Canedo à Paulínia. Com exceção do primeiro anúncio feito antes mesmo do PAC pela Transpetro, subsidiária da Petrobras, todos eles foram condicionados ao estabelecimento de uma parceria com o Japão, envolvendo governo e empresas daquele país.

Este é um mau exemplo de como as obras de infra-estrutura no Brasil são definidas. O alcooduto é importante para todas as empresas que anunciaram ou planejam instalar novas unidades de produção de etanol  nos estados do Centro-Oeste e também em áreas de influência do planejado alcooduto nos estados do sudeste que produzem grande volume de etanol.

Em um momento no qual vários países já definiram metas ambiciosas para a adoção de biocombustíveis e muitos outros estudam o uso compulsório de álcool e biodiesel, o alcooduto não deveria estar condicionado à decisão de um país ou outro, por mais importantes que sejam.

Se é que é necessário condicionante para investir em logística no País – um dos principais elementos do chamado custo Brasil – este deveria ser os investimentos que estão sendo feito pela iniciativa privada.

Além das unidades planejadas para produção de etanol, muitas das existentes poderiam se beneficiar do alcooduto.

De certo, parece que as condicionantes impostas pelo governo federal e pela Petrobras afetam não apenas a própria obra do alcooduto, mas também novos investimentos no setor de biocombustíveis. Com a rápida expansão da produção de biodiesel, sobretudo, de álcool, novos investimentos tornam-se, naturalmente, mais arriscados. Isso ocorre basicamente por dois fatores. O primeiro é o natural aumento da oferta que acirra a competição. O segundo é que à medida que os empreeendimentos se distanciam dos grandes centros consumidores, a logística se torna uma variável cada vez mais importante.

Ao invés de condicionar os investimentos no alcooduto às decisões japonesas, o governo e a Petrobras deveriam condicioná-las às decisões dos empresários brasileirios. É mais do que sabido que a produtividade brasileira da indústria da cana está entre as melhores do mundo, mas como diz um importante usineiro “muito disso se perde da porteira para fora”. Mas para o governo e a estatal, tudo indica que os investimentos podem começar a ser feitos apenas após o próximo nascer do sol.

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O último discurso de Browne, da BP by squizato
2/maio/2007, 1:50 pm
Filed under: Análise, Economia, Geral, Internacional

A saída prematura  do CEO da BP, John Browne (Lord Browne), fez com que seu último discurso como principal executivo da maior empresa do Reino Unido fosse sobre o meio ambiente e o futuro da energia. Em 26 de abril, Browne fez um discurso na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA).

Ele lembrou de que há 10 anos esteve lá e fez, naquela ocasião, um discurso alertando sobre o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera e do aumento da temperatura terrestre.

A partir daquela data a BP começou a investir pesadamente em energias alternativas, com destaque para solar, eólica e biocombustíveis. Claro, que esses negócios ainda são quase traço no orçamento da gigante britânica. Por isso, o “Beyond Petroleum” que a empresa já se auto-aplicou é exagerado. De qualquer forma, foi sem dúvida a primeira das chamadas sete irmãs que decidiu seguir uma linha ambientalmente menos agressiva.

Como Browne afirmou em seu último discurso, esta decisão fez com que um outro executivo do setor dissesse que a BP “deixou a igreja”. Browne notou também que nesses 10 anos muitas outras empresas fizeram movimentos parecidos, fazendo da “velha igreja um lugar bem pequeno”. Outro exagero, mas de qualquer forma a tendência foi definida sob seus 12 anos de comando à frente da BP. Uma das primeiras medidas neste sentido foi o corte das emissões de gases do efeito estufa em 10% em relação aos níveis de 1990, uma decisão que muitas empresas ainda hoje relutam em tomar.

As energias alternativas começam a tomar corpo na empresa. A BP é líder mundial em gasolina misturada com etanol, tem 700 MW de energia solar instalada e pretende chegar ao final do ano com 500 MW de eólica. Segundo o planejamento estratégico da empresa, serão investidos US$ 1 bilhão por ano em energia alternativa nos próximos anos.

A ampliação do leque de negócios, contudo, nem está entre os principais méritos de sua gestão. Para analistas, Browne se destaca pela criação da primeira “super major”– quando  fundiu a BP com a americana Amoco – e pelo desempenho financeiro excepcional em parte em função do aumento do preço do petróleo nos anos mais recentes, mas muito devido à redução de custos promovida pela empresa. Alguns culpam o exagero no corte de custos como causa da explosão de uma refinaria da empresa no Texas (EUA), que matou 15 pessoas.

Porém, o mais notável, talvez tenha sido a aprovação do governo russo para comprar de 50% de uma petroleira daquele país. Primeiro porque é um movimento similar aos feitos na origens da indústria do petróleo, demonstrando uma incrível habilidade política. Segundo porque nenhuma outra grande empresa estrangeira conseguiu fazer isso, apesar da Rússia ser responsável pelas maiores reservas provadas de petróleo fora da Opep.

Lord Browne deixaria a BP em julho de qualquer maneira, logo nada deve mudar radicalmente na empresa, pois o novo CEO, Tony Hayward, já estava definido e a postos. A grande diferença é que a mentira que forçou a saída prematura de Browne irá lhe custar US$ 31 milhões e talvez um processo perante a Justiça britânica.



Questão de fundo by squizato
24/abril/2007, 3:29 pm
Filed under: Análise, Economia, Geral, Internacional, Tecnologia

O barril de petróleo acima dos US$ 60 é um tremendo incentivo para novas tecnologias em biocombustíveis, por exemplo, o etanol celulósico e a técnica de conversão de biomassa em líquidos (BTL). Mas também é um patamar extremamente confortável para explorar comercialmente novas fronteiras e tecnologias na área do petróleo.

A ExxonMobil anunciou hoje que teve sucesso na perfuração do poço Z-11 a 11 quilômetros de profundidade no campo de Chayvo, na província petrolífera de Sakhalin, no leste da Rússia. Segundo a empresa, é um novo recorde mundial.

Sakhalin-1 é o exemplo vivo da importância desses novos projetos para a indústria de petróleo. Lá se reúnem dificuldades geográficas, técnicas e políticas, mas trata-se de um dos maiores projetos de exploração do mundo atualmente.

Para se ter uma idéia da complexidade da tecnologia envolvida, o campo de Chayvo está localizado entre 8 e 11 quilômetros de terra e a perfuração foi feita a partir da ilha de Sakhalin com a broca partindo de uma base em terra e perfurando tanto na horizontal, quanto na vertical. A Yastreb, maior plataforma terrestre do mundo, levou 61 dias para chegar ao poço Z-11.

Segundo a ExxonMobil, o campo de Chayvo atingiu seu pico de produção, de 250 mil barris por dia, em fevereiro deste ano. Este projeto já gerou US$ 50 bilhões para o governo russo e outros US$ 3,8 bilhões de receita para empresas do país.

Projetos como esse requerem o equivalente em investimentos ao de centenas de pequenos projetos inovadores na área de energia renovável. Os entraves para os investimentos em novas tecnologias na área de energia e tecnologia limpa diante do aquecimento global podem ser observados no relatório produzido pelo World Resources Institute (WRI) em parceria com o banco Goldman Sachs e divulgado ontem.

O texto “Scaling Up: global technology deployment to stabilize emissions” (sumário executivo) analisa aspectos tecnológicos, financeiros e regulatórios que irão influir na adoção de novas tecnologias limpas. A análise é baseada no relatório de 2004 dos pesquisadores da Universidade de Princeton, Stephen Pacala e Robert Socolow, sobre as medidas necessárias para conter o aquecimento global.  O paper mostra que ao invés de depender de uma “bala de prata” o caminho a seguir é adotar uma série de medidas. Juntas elas seriam o melhor caminho para reduzir a emissão de gases do efeito estufa (GEE) e estancar o aquecimento do planeta.

O relatório do WRI mostra que além de desenvolver novas tecnologias é fundamental haver capital interessado em aplicá-las na prática. Este é, historicamente, um dos problemas com a energia eólica, por exemplo, que só recentemente começou a ser superado.

A questão do risco também é, obviamente, fundamental. E os investimentos são feitos com base em riscos calculados. Como calcular, por exemplo, o risco financeiro de um vazamento de um sistema de armazenamento de carbono localizado próximo a um grande centro urbano?

De maneira geral, o relatório mostra que há um grande trabalho a ser feito por pesquisadores e pelo formuladores de políticas públicas, mas eles terão que ser complementados pelo desenvolvimento de novos instrumentos financeiros.  É nesta tríade que está a resposta para a velocidade com que as novas tecnologias serão colocadas no mercado. Se elas se desenvolverem lentamente, ainda veremos muitos outros Sakhalins, criados sobre um sistema tecnológico, regulatório e financeiro que completará 150 anos em 2009.



Economist e Foreign Affairs sobre biocombustíveis by squizato
5/abril/2007, 12:55 pm
Filed under: Agricultura, Análise, Biodiesel, Clipping, Etanol, Geral, Internacional

Duas revistas que estão entre as mais influentes do mundo publicaram artigos sobre os biocombustíveis nesta semana. A edição atual da The Economist (somente para assinantes) publica um editorial com o título “Castro estava certo” (Castro was right). O texto está bem balanceado e aponta que o etanol de milho é ruim porque é feito a partir de alimento e requer muito subsídios, mas é bom para políticos, fazendeiros, para a direita americana, para os fabricantes de automóveis e até para as companhias de petróleo.

Ao mesmo tempo elogia o etanol brasileiro, por ser muito mais eficiente, e registra que o Brasil ainda tem muita terra para expandir a produção. Lembra também que o etanol celulósico deve colocar um ponto final no debate comida versus alimento. Porém, omite que os Estados Unidos são os principais interessados em desenvolver a segunda geração de etanol e que a Europa investe pesadamente na produção de biodiesel a partir de grãos. Faz um lembrete importante e muito negligenciado atualmente na imprensa. O etanol não irá resolver os problemas da humanidade. É apenas um dos elementos para diversificar a matriz energética mundial.

Já a Foreign Affairs (FA), tida como a bíblia das relações exteriores, traz um longo artigo de dois professores, co-diretores do Centro da Indústria Alimentícia da Universidade de Minessota. Com o título “Como os biocombustíves podem deixar os pobres famintos” (How biofuels could starve the poor). O artigo do professores C. Ford Range e Benjamin Senauer é muito mais crítico do que a análise da Economist, mas também tem o mérito de criticar métodos produtivos pouco eficientes como o etanol de milho ou o álcool de mandioca, que é uma das opções usadas no sudeste asiático. Também critica as barreiras comerciais e aponta para os problemas ambientais que o aumento da área de milho pode provocar.

Um pequeno parênteses sobre a mandioca: na década de 70 o Brasil estudou o uso da mandioca para produzir etanol – ao menos uma usina começou a ser montada no Mato Grosso –, mas chegou-se a conclusão que a cana era muito superior e esse sprojetos foram abandonados.

O artigo da FA conclui que ao invés de subsídios e outras formas de incentivo, os Estados Unidos deveriam investir em eficiência energética, produtividade agrícola e no aumento da eficiência dos combustíveis feitos a partir da celulose.

Os críticos dos biocomsbutíveis ganharam poderosos argumentos com a publicação desses dois artigos, mas ao mesmo tempo, esses textos tem o mérito de apontar a direção correta a se seguir para introduzir os biocombustíveis na matriz energética mundial. Principalmente o artigo da Economist, também tem o mérito de desmistificar  alguns pontos e de separar o joio do trigo, ou melhor, o milho da cana.



Boi na linha by squizato
4/abril/2007, 10:35 am
Filed under: Agricultura, Análise, Clipping, Economia, Etanol, Geral, Tecnologia

Pecuaristas e representantes de outros setores começam a reclamar da expansão da cana. Bom exemplo disso pode ser lido no caderno de Economia de O Estado de S. Paulo (somente para assinantes). O diretor técnico da Associação dos Criadores de Zebu, Nelson Pineda, afirma que “a febre em torno do biocombustível pode trazer conseqüências desastrosas ao setor agropecuário” e que “o entusiasmo em torno do “ouro verde” não pode prejudicar o desenvolvimento de setores que possuem peso na balança comercial”.

O ritmo dos negócios do setor de biocombustíveis desperta – cada vez mais – a atenção de outros setores. As críticas, como já foi dito aqui, vão aumentar. Mas na comparação com outras culturas, o setor de cana tem todo o direito de se expandir. Claro, a diversificação de culturas é salutar, mas este não é o ponto.

O Brasil, felizmente, tem terra de sobra. Por sobra, entenda-se mal aproveitadas. E o melhor exemplo disso vem da própria pecuária. Há aproximadamente 220 milhões de hectares de pasto no país, com cerca de 200 milhões de cabeças. Reclamar de uma cultura que ocupa pouco mais de seis milhões de hectares é, pela mera diferença de área, rizível. Há outros fatores ainda mais importantes. E já que a questão é área, deve-se procurar obter o máximo de produtividade no terreno ocupado, com o mínimo impacto ambiental.

No quesito produtividade, a cana tem se mostrado praticamente imbatível. Basta ver os dados da balança comercial do agronegócio do primeiro bimestre. O setor sucroalcooleiro exportou US$ 1,133 bilhão, enquanto o complexo soja vendeu para fora US$ 749 milhões e carnes bovinas venderam US$ 690 milhões. Apenas para colocar em perspectiva, a cana ocupa 6 milhões de hectares, a soja usa 20 milhões de hectares e os bois quase nove vezes a área dessas duas culturas somadas.

A questão também não pode ser resumida à balança comercial, porém, se o critério for este, a expansão da cana está mais do que justificada. Ao invés de criticar a expansão de outros setores, seria mais produtivo para a discussão e para o país que setor de pecuária de corte focasse os esforços em aumento da produtividade. Um bom começo seria buscar formas de acelerar a implementação de sistemas integrados de lavoura-pecuária. Os benefícios são ilustrados neste texto da Embrapa Gado de Corte. Há muitas outras soluções disponíveis e espaço – para todos – não falta.



79 milhões de hectares e mais lenha na cana by squizato
2/abril/2007, 10:33 am
Filed under: Agricultura, Análise, Clipping, Etanol, Geral

A edição de ontem de O Globo traz na capa do caderno de economia mais um estudo sobre o etanol do Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência da República, este produzido em parceria com a UFRJ.

O texto diz que foram identificados 79,4 milhões de hectares para plantio adicional da cana, dos quais 38,2 milhões de hectares tem potencial produtivo alto ou médio. Segundo o texto, está área poderia produzir 100 bilhões de litros, em data não informada,  ou 200 bilhões de litros em 2025, incluindo introdução do etanol  celulósico.

Tudo muito bom, mas os números parecem estar subestimados. Mesmo quando se considera os 200 bilhões de litros em 38,2 milhões de hectares, o resultado é uma produtividade de 5.236 litros por hectare. Atualmente, a produtividade brasileira é de 2.967 litros por hectare, se forem considerados 17,8 bilhões de litros em seis milhões de hectare.

Contudo, metade da matéria-prima atual é usada para produzir açúcar. Isso não deve continuar a ocorrer porque o mercado de açúcar não deverá crescer à mesma proporção do etanol. Assim, mais cana será usada para produzir álcool, como ilustram diversos novos projetos que têm foco apenas na agroenergia: álcool e eletricidade a partir da biomassa.

Ou seja, quando se considera apenas o porcentual usado para fazer álcool a produtividade salta para 5.933 mil litros por hectare. A seis mil litros por hectare, apenas os 38,2 milhões de hectares citados no estudo seriam capazes de produzir 229 bilhões de litros por ano. Para toda a área citada, o volume chegaria a 476 bilhões de litros por ano.

Há duas grandes perguntas: Qual será o ritmo de expansão da cana?  Qual será o aumento da produtividade durante este período? Quem tiver as respostas a essas perguntas ganha um doce.

Ontem, O Estado de S. Paulo (somente para assinantes) trouxe duas páginas do caderno de economia com os problemas relacionados à cana. Uma delas inteiramente dedicada aos problemas trabalhistas, com foco nas 18 mortes de bóias-frias associadas ao excesso de esforço ocorridas desde 2004. Outra informando que o WWF quer fazer estudo para rever o impacto do álcool no meio ambiente. A temporada de ataque à cultura está aberta e muitos relatórios devem surgir para mostrar os pontos fracos da cana.

Juntando o estudo do NAE com as críticas trabalhistas e ambientalistas, a pergunta que se faz é: Quem está cuidando do planejamento estratégico para uso do solo no Brasil? Enquanto a nação se preocupa com a expansão da cultura de cana, 200 milhões de bois e vacas pastam solenemente em 220 milhões de hectares, que incluem os biomas do Pantanal e da Amazônia. Obviamente, a questão da coupação do solo deve ser comparativa. É melhor cana ou pasto? Cana ou soja? Cana ou mata nativa? E assim vai. Para cada região a resposta deve ser diferente. Pois, como diria Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra.